Filhos Adolescentes

Com o nascimento da Isa (há quase 14 anos) e da Bia (12 anos atrás) nasceu o “Renato-pai”. O “Renato-pai” nascido cru, despreparado, que aprendeu a engatinhar na paternidade junto com o desenvolvimento das suas meninas.


Tive que aprender muito. Desde o nome das princesas da Disney até fazer unhas. Encarar a dor de falar eternos “não’s” e o prazer de realizar sonhos. Tive que aprender a fazer trança, a combinar roupas, a ter paciência (e quanta paciência é necessária para entender que cada um tem o seu tempo, certo?). Tive que aprender sobre a sensibilidade e força do universo feminino que habitavam naquelas pequenas que eu achava ter controle....


Controle... pura ilusão! Tinha certo controle comportamental, é claro, mas jamais tive o controle de quem eram, de quem são. Quem elas são? Pergunta essa que ainda hoje não cala no meu peito.


Eu Renato (não “Renato-pai”) ingenuamente acreditava que filhos eram resultados de paternidades e maternidades exercidas (ou não) com êxito. Não fui informado das variáveis. Não fui informado que as crianças viriam com uma carga enorme chamada personalidade a qual eu não podia moldar.


Personalidade é o conjunto de características que determinam a individualidade de alguém. Entender que minhas filhas eram seres individuais mostrou-me um outro lado da paternidade: o lado em que minhas filhas não eram necessariamente “minhas”, mas do mundo. E “filhas” eram apenas um dos inúmeros papéis que elas desempenham e desempenharão nas suas vidas.


Ser criança é uma qualidade temporal. As crianças são pessoas (completas, complexas, ricas de desejos, de faltas, de buscas, de sentimentos, pensamentos e ações individuais) que estão crianças e sob o nosso cuidado temporário, até que elas batam asas e voem nas suas próprias histórias.


Quando a adolescência bateu à nossa porta, esse entendimento ajudou muito. A adolescência, ao meu ver, é o último processo de desdobramento do véu que separa a individualidade da criança/adolescente da projeção de seus pais. Em outras palavras, que separa a verdade do indivíduo daquele ser imaginário que nós pais esperávamos que nossos filhos fossem.


Sejamos sinceros: nós (pais e mães) projetamos o tempo todo nos nossos filhos. Projetamos comportamentos, profissões, gostos. Projetamos nossas frustrações de sonhos não realizados para que sejam sonhados (e então realizados) pelas crianças. Que pressão não? Que injusto.... E, pensando um pouco mais, não são desse descompasso que nascem a maior parte dos conflitos do lar?


Os filhos não têm essa responsabilidade conosco. O compromisso deles é com a sua própria história e o nosso como pais e mães é dar a eles a base de valores morais e comportamentais para que boas escolhas sejam feitas. Escolhas, mais uma vez, deles e não nossas.


Assim, ouso convidá-lo/a para que reflita um pouco como pai ou mãe. O que você espera de seu adolescente? De verdade, qual o seu objetivo em exercer esse o papel de pai ou mãe? A realização de quem está sendo efetivamente projetada? Seguimos a nossa expectativa do "tempo certo" ou respeitamos a necessidade dos nossos filhos no tempo deles? Quem é real responsável pelos conflitos? Ou pior, quem é o responsável pelo silêncio que vez ou outra aparece nos distanciando tanto de quem tanto amamos.


Estamos ainda prontos a exercer o tão falado “amor incondicional”? Amamos mesmo os nossos filhos sem quaisquer condições?


Na minha posição de pai-aprendiz, além dessa humilde sugestão de autorreflexão eu ainda ouso sugerir comunicação. Conversa. Conversa não quer dizer falar. Quer dizer ouvir. Acolher medos, sentimentos, desejos. Acolher o ser humano que se desabrocha como individual à nossa frente. Ouso ainda sugerir em deixar a tão falada “empatia” de lado. Empatia é olhar a história do outro pela sua perspectiva. Talvez, os “nossos” adolescentes precisem de quem olhe para a história deles por suas próprias perspectivas. Isso se chama “compaixão”. Fácil ter compaixão em casa? Mais fácil fora, certo? Mas precisamos tentar.


Lembrem-se: somos pais crus de uma geração com desafios que a história não viveu. Nossas referências têm de ser refletidas, questionadas e desafiadas por nós mesmo - caso contrário, serão certamente desafiadas pelos nossos filhos. E não é isso que queremos, certo?


Para finalizar, eu sugiro ouvir com atenção a música “93 Millions” do Jason Mraz. Para quem não conhece, busquem a letra disponível na internet. Basicamente, a música coloca o papel de pai e mãe como impulsores de seus filhos para o mundo, falando para eles irem o mais longe possível, mas lembrando que sempre eles podem voltar para o “lar” onde pai e mãe estarão lá para ampará-los. Sempre. Talvez, toda a beleza de ser pai ou mãe esteja nisso: ser o porto, mas não a âncora. E, com a esperança de que algo que ensinamos seja bem usado nesse navegar, aplaudir incondicionalmente as conquistas desses novos desbravadores da vida.


Renato

PAI DE ADOLESCENTES ;)

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