SER Pai

Meu nome é Jordi, tenho 40 anos e sou pai de 3 meninas.


Já para começar, reconheço alguns pontos menos tradicionais na minha história, que - para mim - a tornam um tanto mais especial, mas, por outro lado, tornam tudo um tanto mais desafiador também.


Com 20 e poucos anos, no meu primeiro casamento, resolvemos adotar duas irmãs, essas são minhas filhas que hoje estão com 22 e 23 anos.


Esse tema por si só já daria um livro, mas, para resumir, a intensa experiência da adoção - que hoje vemos como uma decisão quase "inconsequente" (risos) - foi o que me apresentou a paternidade.


Anos mais tarde, com minha esposa atual, tivemos mais uma menina, hoje com 5 anos.


Para entrar na pauta, começo dizendo, sem qualquer hipocrisia, que no momento em que soubemos da gravidez da caçula a primeira coisa que me veio a cabeça foi: "Será que vou amar minha filha biológica mais do que minhas filhas adotivas?". Não tenho dúvida que essa seja uma dúvida de muitas pessoas na mesma situação, assim como estou certo de que as respostas são várias e, honestamente, não julgo nenhuma delas.


Comigo foi assim: A chegada da pequena foi uma incrível jornada para dentro de mim, de redescoberta e reconstrução da minha paternidade!


"Estranhamente", ao receber mais uma filha o amor se multiplicou e posso dizer que melhorei ainda mais a relação com as mais velhas e, como costumo dizer, sou um privilegiado por poder sentir esse grande amor por todas de maneira tão igual, mesmo com elas sendo tão diferentes...mas isso é tema dos próximos parágrafos!


Ser pai em 2021 - e aqui está a MINHA opinião, é claro - é se desconstruir continuamente. Ser pai de menina, penso que seja ainda mais.


Ouvi certa vez um especialista em educação dizer que sou da geração que terá mais dificuldade em educar os filhos. Apenas pelo fato do mundo estar mudando com tanta velocidade (e em tantos aspectos) que de tudo aquilo que meus pais me transmitiram e que os pais deles ensinaram, eu conseguiria usar poucas coisas para educar minhas filhas. Não por estarem errados, simplesmente por conta do quão diferentes são as gerações. De fato, muitas vezes percebo isso.


As crianças de hoje parecem nascer com outro "chip", não é mesmo?!?


Quantas vezes me pego conversando com amigos e as histórias são tão comuns: quão desafiador se tornou criar os filhos e em qual percentual isso é inabilidade nossa ou culpa do tal "chip" dessa molecada?!


Mais que isso, nessa velocidade de transformação do mundo, o quanto vamos conseguir educar nossos filhos para o futuro DELES? Aí bate até um desespero! (risos)


As chances de errar são grandes, mas, por aqui, chegamos a algumas conclusões. Se sempre vai funcionar não sei, mas estamos indo mais ou menos bem:


1. RESPEITAR AS INDIVIDUALIDADES: No meu caso é quase regra. Com filhas tão diferentes, o exercício continuo de entender jeitos e desejos de cada uma, me faz ser uma pessoa mais empática, me livra de um bocado de pré-conceitos.

Naturalmente nos vem a mente a imagem da bailarina quando temos uma menina, mas como é gostoso enxergar uma jogadora de futebol que ama o que faz, não é mesmo?!

E, esses dias, quando a Rayssa do skate ganhou a medalha nas Olimpíadas, o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, com quem muitas vezes concordo, escreveu algo que me fez refletir ainda mais sobre isso. Entre outras palavras de um post no Instagram, ele disse: “A sua Rayssa pode ter o desejo de ter cabelo curto, pode querer nunca usar brinco ou maquiagem, pode querer tudo isso e ainda inventar novas formas de ser. É de cada menina o direito de fazer acontecer a sua identidade. O nosso papel, como pais, é de primeiro existirmos de fato ao lado delas, e não somente como fotos instagramáveis e cheias de filtros que escondem nossas falhas. Pai é o avesso do que sempre nos ensinaram a ser, se quisermos dar às nossas Rayssas o direito de serem quem elas quiserem ser. Desaprender é o sal da paternidade.”


2. OUVIR E APOIAR: Aqui penso que o principal seja o OUVIR, mas de verdade. Porque aí o APOIAR vem quase consequentemente. Se desarmar para poder ouvir e saber que aquele choro, aquele medo, aquela dúvida ou até aquela raiva que para nós, no dia-a-dia, as vezes parece sem motivo, tem motivo sim. E o motivo não é nosso, então pode continuar parecendo pouco, parecendo bobo. Mas, se a angustia está ali, sei que ouvir e apoiar funciona, e tem funcionado sempre. No meu treino de ouvir mais, tenho sentido que só de acalmar a voz da minha cabeça, verdadeiramente, e esperar a hora certa de falar ou intervir os resultados são invariavelmente melhores.

Claro que não significa colocar-se de maneira pacífica como pai ou “educador”, nem tampouco significa que consigo sempre e muitas vezes tenho que voltar uma casa (no item 1, pra entender a Individualidade), mas posso dizer que vale o esforço. Ouvir e apoiar, acolher!


3. AMAR: Bom...aí também, depois dos dois primeiros, é quase óbvio! Mas está na lista pra dizer que acredito em amores construídos, o que, consequentemente, me obriga a cultivar pequenas ações todos os dias. Mais do que o “amar romantizado”, entendo que amar seja desejo de cuidar, de querer bem, também de ouvir, apoiar, respeitar individualidades e mais algumas coisas. Por minhas crenças e história, não engulo muito amores 100% incondicionais e, de certa maneira, isso é o que me dá forças para querer construí-lo continuamente. Dizer que ama é mais fácil para alguns e pode ser difícil para outros, mas, no final, o que importa é o que FAZEMOS para demonstrar esse amor, não é mesmo?!


E então com esses três pontos vou encerrando esse bate-papo.

Como pediram para falar a respeito de paternidade aqui neste Blog, resolvi contar um pouco de mim, falar de algumas coisas que acredito. Como disse no início, essa é a minha visão, uma pessoa que curte pra caramba a paternidade e que adora, tanto quanto, APRENDER... e, convenhamos, se ser pai não é para isso, pra quê é então?!?


Um grande abraço

Jordi Allue

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